sábado, 5 de julho de 2008

Levantadores de peso - Leonid Taranenko


Nesse artigo, iniciarei uma série onde serão citados os principais atletas do levantamento de peso da história. Atletas que superaram limites, quebraram recordes e conquistaram medalhas de ouro, prata e bronze nos Jogos Olímpicos para suas respectivas nações.

Em épocas completamente diferentes da nossa, onde havia (ou não) um pequeno conhecimento sobre planejamento de treino; onde se acreditava que "quanto mais treino, melhor!", jamais cogitando a existência de uma variável do treinamento, chamada hoje, de supertreinamento ou "overtraining", e até mesmo os esteróides anabólicos androgênicos (EAA) eram praticamente desconhecidos (mais do que atualmente). Sobre os aspectos nutricionais então nem se fala. Mas mesmo assim, podemos observar que os atletas praticavam o esporte, seja qual for a modalidade, com o "coração". Eram "cobaias" de seus treinadores apenas pelo prazer de competir, sem se importar com o fato de não possuírem garantias de uma aposentadoria segura, ou até mesmo de uma vida saudável após a carreira esportiva.

Os primeiros atletas que mencionarei foram duas lendas da ex-União Soviética. Competiram em épocas de Guerra Fria, onde tanto a URSS quanto os EUA lutavam muito para dominarem o cenário esportivo. Leonid Taranenko e Vasily Alexeev foram dois monstros! Duas personalidades que, na época, foram comparados aos heróis superpoderosos das histórias em quadrinhos. Não iniciarei falando sobre a maior lenda (Alexeev) pois, creio que Taranenko tenha sido mais (se isso é possível!) impressionante. Taranenko não era tão alto quanto Alexeev. Não era tão pesado quanto. Mas mesmo assim, foi capaz de feitos impressionantes.


Leonid Taranenko



Nascido em 1956, conquistou em sua carreira 5 medalhas olímpicas: 2 de ouro, 2 de prata e 1 de bronze, competindo nas categorias 108+ kg, 110 kg e 110+ kg.

Detentor de 26 quebras de recorde, foi o atleta que levantou a carga mais pesada do século 20. Aconteceu em Camberra, na Austrália em 1988 através de um arremesso de 266 kg, que passou então, durante as décadas seguintes até os dias atuais, a ser um desafio para os demais atletas.



Taranenko realizando o segundo maior arremesso de todos os tempos: 265,5 kg.
Link para ver esse arremesso: http://www.youtube.com/watch?v=gsXY7KxegAc
Link para assistir ao maior arremesso (266 kg): http://www.youtube.com/watch?v=D845ugFQh2U



Formado na escola bielorrussa de levantamento de peso, Taranenko levantou pesos em nível internacional até os seus 40 anos de idade. Durante sua carreira, ele representou as seleções nacionais da URSS, e após o colapso, a Comunidade dos Estados Independentes e, por fim, a Bielorrússia.

Taranenko se tornou candidato para a seleção soviética aos 19 anos, em 1975. Entretanto, sua ascensão ocorreu nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, onde ele conquistou a medalha de ouro na categoria de 110 kg. Quatro anos mais tarde, ele estava preparado para competir em sua segunda Olimpíada, entretanto, devido ao boicote da URSS nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, ele deixou de conquistar seu merecido título. Como alternativa ao Jogos Olímpicos, os soviéticos participaram do Torneio Amistoso Internacional, onde Taranenko venceu na classe de 110 kg com o recorde mundial total de 442,5 kg (ou 52,5 kg a mais do que Norberto Oberburger - o medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles).

Rapidamente, após esse ano, Taranenko transferiu-se para a categoria Super Pesados (110+ kg). Esse passo foi arriscado pois ele não era tão alto para essa nova categoria de peso. Em adição, o time soviético já possuía uma longa lista de jovens ambiciosos para se tornarem o "homem mais forte do mundo" nessa categoria, título que se generalizou após a aposentadoria de Vasily Alexeev.


Comparação entre Taranenko na categoria 110 kg e Taranenko na categoria acima de 110 kg.



Em 1992, aos 36 anos, Taranenko conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Barcelona representando sua pátria, Bielorrússia. Aos 40 anos de idade, Taranenko conquistou o título de Campeão Europeu e também tentou sua participação nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Apesar da conquista do europeu, sua longa história de lesões o impediram de alcançar esse último desejo em sua carreira de atleta. Após sua aposentadoria, Taraneko seguiu a carreira de treinador, sendo em 2004, antes dos Jogos Olímpicos de Atenas, demitido do comando da seleção nacional da Índia devido ao resultado positivo no doping de duas atletas indianas. Porém, esse episódio singular foi incapaz de manchar uma das mais brilhantes carreiras e histórias no levantamento de peso.


Leonid Taranenko nos dias atuais.


Na próxima biografia, será descrita a história do levantador de pesos conhecido como "Urso Russo", Vasily Alexeev. O gigante russo de 1,86m e 160 kg que quebrou, ao todo, 80 recordes mundiais em sua carreira e, além de ter sido um dos melhores levantadores de peso de todos os tempos (alguns dizem que foi o "Pelé" do levantamento de peso), foi também uma das mais carismáticas figuras da modalidade.


Qualquer dúvida ou sugestão, comentem o blog ou enviem um e-mail para rdallsantos@hotmail.com.


Obrigado!

Rodrigo Dall'Aqua

domingo, 29 de junho de 2008

Levantamento de peso - Força Rápida


Nesse artigo, escreverei sobre a principal capacidade biomotora da força a ser desenvolvida no atleta de levantamento de peso: a Força Rápida. Antes de citarmos a força rápida (força explosiva ou potência), re-lembraremos as modificações dos componentes neurais em relação ao treinamento de força (máxima ou força rápida).

Podemos sintetizar a postagem anterior sobre força máxima citando Sale (2003): "as adaptações* neurais predominam no início do treinamento. Posteriormente, quando alcançam um platô, ocorre a adaptação* muscular" (hipertrofia). *hormese.

Sendo esse conceito de Sale (2003), denominado pelo mesmo de adaptação neural, surge da observação de um aumento da força no início do treinamento com ausência (mensurável) de hipertrofia (aumento da secção transversa do músculo - aumento do tamanho muscular).

Assim, como explicado no artigo anterior, as adaptações de ordem neurais, segundo Häkkinen (2002), envolvem: (a) aumento da velocidade de condução e freqüência dos estímulos nervosos; (b) sincronização de unidades motoras intra e intergrupamentos musculares sinergistas ao movimento. É importante conhecer as alterações neurais relacionadas ao treinamento de força, pois Charniga (2001) cita que as duas capacidades motoras mais exigidas no levantamento de peso são a força máxima e a força rápida (essa sendo a primária, a mais importante).


Força Rápida


De acordo com Bompa (2002); Weineck (2003) e Platonov (2004) força rápida (potência) é a capacidade para realizar um movimento explosivo, no menor tempo possível, resulta da integração de força máxima e velocidade. Para este autor existem dois tipos de potência: acíclica e cíclica. A Potência acíclica é o tipo de potência que não possui um ciclo, ou uma continuação do mesmo, ou seja, há uma quebra de “ritmo” durante a realização do movimento (como por exemplo o arranque e o arrremesso). Já a Potência cíclica é o tipo de potência que já possui um ciclo, o ciclo só é quebrado com o fim do que se deseja realizar.

Ritzdorf (2000) divide a força em grupos de esportes conforme a aplicação da força. O grupo do levantamento de peso é o de esportes com aplicação de força concêntrica de alta intensidade e curta duração. Este se caracteriza por aplicações de força breves e muito potentes, onde os músculos geralmente trabalham de forma puramente concêntrica. Essas atividades geralmente envolvem certa massa (implemento esportivo ou próprio corpo), que deve ser acelerada ao máximo, ou quando a duração do movimento deve tornar-se mínima. O autor ainda diz que a potência não é dimensão independente da força, pelo contrário, é determinada pelo alto nível de força máxima.

Um dos principais métodos de se desenvolver potência (força rápida) é o pliométrico, que, de acordo com Verkhoshansky (2000), é uma forma específica de preparação da força dirigida ao desenvolvimento da força explosiva muscular e da capacidade reativa do sistema neuromuscular.




Exemplo de treino pliométrico para os membros inferiores: (1) queda; (2) impulsão (contato rápido ao solo); (3) salto.

Neste método, o peso da sobrecarga e sua força de inércia não influem tanto no estímulo mecânico externo para a atividade muscular como a energia cinética, acumulada no aparelho ou no corpo do esportista durante a queda de certa altura (0,75 a 1,10 metros). Um estiramento brusco (pliométrico) dos músculos durante a ação de freio do aparelho (ou do corpo) que cai, constitui um fator de estímulo que aumenta a velocidade da posterior contração muscular e diminui a duração da fase de transição do trabalho excêntrico ao concêntrico, ou seja, o músculo irá se contrair com mais força e rapidez a partir da posição de pré-alongamento, sendo que essa fase de encurtamento deve ocorrer imediatamente após a conclusão da fase de pré-alongamento (Bompa, 2004; Verkhoshansky, 2000).

As maiores vantagens do método pliométrico são as seguintes: ele garante um desenvolvimento muito rápido do máximo impulso dinâmico da força e esse valor é superior ao do resto de tipos de trabalho e é alcançado sem utilizar uma sobrecarga suplementar; a transição do trabalho excêntrico ao concêntrico é mais rápido que em outros casos, sendo que o considerável potencial de tensão muscular acumulado na fase de amortecimento e a inexistência de uma sobrecarga suplementar garantem um maior trabalho muscular na fase de impulso e uma maior velocidade de contração muscular, que se manifesta na maior altura do salto depois do impulso (Verkhoshansky, 2000).

Porém, Verkhoshansky (2000) recomenda não utilizar esse método quando o esportista não está completamente restabelecido de lesões nos músculos, nas articulações, nos ligamentos e nos tendões ou quando ele se cansou com a carga anterior. O autor também não aconselha utilizá-lo: na etapa inicial de treinamento atual, quando organismo ainda não está preparado para uma sobrecarga mecânica intensa; na etapa de aperfeiçoamento profundo da técnica do exercício de competição, sobretudo quando ela exige uma modificação de elementos delicados (detalhes) de coordenação; em vésperas de competição e quando o esportista carece de uma técnica racional de execução dos exercícios.



Exemplo de treino pliométrico para os membros superiores com a utilização de uma sobrecarga (medicine ball)


Em relação ao desenvolvimento da potência (força rápida) por meio dos pesos livres, Zenalov (1976) cita que, em relação aos membros inferiores (principais músculos a serem desenvolvidos no levantamento de peso para a obtenção de bons resultados), os exercícios de assistência (como por exemplo o agachamento frontal e o agachamento) são comumente usados objetivando o aumento da força (força máxima e força rápida). Zenalov (1976) explica que os exercícios de agachamento geralmente são realizados com cargas próximas à carga máxima do arremesso ou do arranque (carga inferior ao arremesso), ou seja, mesmo que o atleta consiga agachar com 100 kg a mais, é recomendável que ele realize um maior volume de treino do que uma maior intensidade, devendo assim, diminuir a carga. Isso, explica Deniskin (1981), deve-se ao fato de que, apesar de ser um exercício de extrema importância, esses exercícios contribuem eficazmente apenas para o desenvolvimento da força absoluta, mas possuindo uma pequena eficácia em gerar força explosiva (Vorobeyev, 1977; Medvedyev, 1968; Avenesov, 1970).

Assim, , podemos concluir que, em relação ao levantamento de peso, os exercícios mais recomendados para o desenvolvimento da força rápida são os de competição (arranque e arremesso) e os pliométricos, sendo de extrema importância a correta utilização de ambos em seus devidos períodos de preparação, pois um erro metodológico ou de planejamento poderá ocasionar em uma falha na aquisição da capacidade física mais importante dessa modalidade (e de diversas outras): a força rápida.





O agachamento para atletas de levantamento de peso não necessita ser tão pesado quanto para os levantadores básicos, pois a modalidade exige uma maior força de velocidade (e não força máxima) e, ao mesmo tempo, um agachamento mais profundo (ao contrário do levantamento básico, onde o exercício é realizado até os 90º de flexão).


Ao longo dessa semana, postarei um artigo sobre a última capacidade biomotora da força: a força de resistência, em especial a de resistência hipertrófica.

Dúvidas ou sugestões, postem através de comentários ou enviem um e-mail para: rdallsantos@hotmail.com.

Obrigado!
Rodrigo Dall'Aqua

sábado, 14 de junho de 2008

IV Simpósio de Educação Física em Cardiologia - Gramado/2008



Hoje, devido à falta de tempo para postar artigos sobre os temas antes desenvolvidos nesse blog, irei comentar sobre o IV Simpósio de Educação Física em Cardiologia realizado em Gramado, na sexta-feira e no sábado (13 e 14, respectivamente), onde tive a oportunidade de, juntamente com os colegas e amigos Luciano Ribeiro e André Rosa, apresentar, em forma de pôster, nosso trabalho sobre EAA (esteróides anabólico-androgênicos).


Rodrigo Dall'Aqua, André Rosa e Luciano Ribeiro - Apresentação do pôster:
Respostas cardiovasculares em usuários de esteróides androgênicos anabolizantes (EAA) submetidos ao teste de esforço máximo.


Não comentarei especificamente sobre o trabalho pois há ainda alguns ajustes a serem realizados. Restringirei-me apenas a citar que, infelizmente, em nossa sociedade são poucas as pessoas que são capazes de discutir, de uma maneira imparcial, sobre algo tão polêmico e (mais importante) algo que está se tornando um problema de saúde pública semelhante à obesidade: o uso abusivo de Esteróides Anabólico-Androgênicos por atletas e não-atletas.

Talvez devido ao medo, ou ao preconceito - um conceito ou opinião sobre algo antes mesmo de ter contato ou conhecimento - muitos colegas com doutorado e até mesmo médicos criticam e menosprezam de tal modo que, se não possuíssemos a vivência e experiência no meio do esporte (a prática!), onde podemos observar um índice elevado e crescente de usuários informados - porém vejam que informação não é sinônimo de CONHECIMENTO! A informação está extremamente fácil de se obter hoje em dia (internet, revistas, jornais, televisão...), já o conhecimento e, principalmente o conhecimento sobre essas drogas, ainda é inexistente na grande maioria da população e também nos próprios usuários - certamente seríamos rigorosamente contra o uso de tais substâncias. Porém, nossa (do grupo) opinião em relação ao tema não é tão extrema assim. É um pouco simples até. Pode ser resumida em uma palavra: "depende". Depende dos objetivos, da dosagem, do "conhecimento" do usuário em relação à substância utilizada, etc. Como tudo na vida, o uso de EAA também possui seus prós e contras. Resultados benéficos e efeitos colaterais maléficos.

Resumindo, acredito que, apesar de toda a informação que podemos encontrar nos meios de comunicação sobre os EAA, ainda não estamos preparados para buscarmos o conhecimento dos EAA. Isso só será possível quando essa barreira do preconceito e do medo for superada. Quando esse tema parar de ser visto por alguns como "piada", onde eles ainda acreditam que quem utiliza tais substâncias são apenas os "ogros" das cavernas, os halterofilistas e fisiculturistas, e, assim como nossos políticos, vivem em outra realidade e raramente (às vezes nunca), retornam ou visitam nosso mundo. Mundo onde os atletas de elite (sim! esses das Olimpíadas - alguns, ou seria a grande maioria?...volto na "Teoria da Conspiração" adaptada por Dall'Aqua), pessoas treinadas (semi-atletas - com longo tempo de treinamento - acima de 6 anos), e até mesmo novatos (acreditem! há usuários com apenas poucos meses de treinamento!) estão usando os EAA com o objetivo de melhora de rendimento e/ou melhora estética (pessoas famosas utilizam também! Vejam a Playboy desse mês! - no mínimo um "Deca-durabolin" (Nandrolona) tem naquele corpinho!).

Mudando de assunto - pois retornarei ao mesmo futuramente, quando nosso trabalho estiver finalizado - gostaria de comentar sobre os pontos mais marcantes desse encontro. Primeiramente, como de costume, irei polemizar, e falarei sobre uma propaganda do MEC que foi muito criticada pelos profissionais da Educação Física: nesse comercial - do "Pro-uni" - há dois jovens na praia. A menina diz que quando olha para o mar, sonha em ser bióloga. Já o menino, olha para a praia e observa umas mulheres jogando vôlei, e diz que sonha em fazer Educação Física, sendo que logo após, a garota pergunta com cara de deboche: "Educação Física??", ficando clara a opinião da maior parte da população brasileira em relação ao educador físico: um folgado, sem estudo, que gosta de esportes, resumindo, um professor que apenas joga a bola para as crianças se divertirem.

Peço a todo profissional (Educador Físico) que esteja lendo essa coluna que entre no site do MEC (http://portal.mec.gov.br/) e faça uma crítica à propaganda. Como Educadores Físicos devemos exigir RESPEITO. Vagabundo existe em todas as profissões! Não podemos ficar manchados por alguns elementos.

Nossa área tem que começar a ocupar seu devido e merecido espaço na sociedade. Através de profissionais bem capacitados, podemos fazer parte de uma equipe multi-disciplinar para auxiliar na reabilitação de pacientes cardiopatas, diabéticos e etc. Podemos realizar inúmeras pesquisas científicas sobre o CORPO HUMANO (ainda pouco conhecido pelo homem). Podemos treinar campeões olímpicos. Somos os mais aptos para isso! Mas estamos perdendo espaço. Espaço que ainda não está ocupado, porém, aos poucos, devido à nossa incompetência, está sendo preenchido por profissionais de outras áreas (até mesmo não ligadas à Área da Saúde!).



Assim, fica um sinal de alarme para todos os colegas. Devemos exigir mais respeito, porém, ao mesmo tempo, devemos fazer por merecê-lo. O principal meio é o estudo, o conhecimento. E, através dele, devemos, pouco a pouco, transformar (modificar) a cultura brasileira que se instalou desde a época da ditadura, onde a Educação Física era mecanicista e repetitiva - e continua sendo até hoje (infelizmente) - para então, instalar uma "cultura da Saúde", onde o Ministério da Saúde seja realmente o da "saúde" e não o da "doença" como é atualmente, onde ele prioriza o tratamento ao invés da PREVENÇÃO! Sendo comprovado que a cada 1 real gasto na "Saúde" (esporte, exercícios físicos, lazer...) o governo economiza mais de 3 reais no tratamento de futuras doenças!
Dúvidas ou informações: postem comentários ou enviem um e-mail para rdallsantos@hotmail.com.
Obrigado!
Rodrigo Dall'Aqua

domingo, 8 de junho de 2008

Levantamento de peso - capacidades motoras (parte II)

Nesse artigo, retornaremos à modalidade de levantamento de peso, onde continuaremos a descrevê-la de um modo científico, agora as capacidades especiais da força, ou seja, os tipos de força que a modalidade mais necessita: força rápida e força máxima. Primeiramente, conceituaremos o significado de "força" de acordo com a literatura, para então, entrarmos nas divisões e por fim, definirmos meios e métodos de treinamento que são utilizados para se treinar cada tipo de força.

Força - A força muscular é importante em vários esportes, especialmente no Levantamento de peso, onde é a capacidade física mais solicitada.

A força está ligada a capacidade de aplicar impulso. Representa a capacidade do indivíduo para vencer ou suportar uma resistência, ou seja, é a capacidade de superar resistências e contra-resistências por meio da ação muscular (Bompa, 2002; Verkhoshanski, 2001). Também pode ser definida como a capacidade neuromuscular de superar uma resistência externa e interna (Zakharov, 2003). Em nível microscópico, a força pode ser definida como o número de pontes cruzadas de miosina que podem interagir com os filamentos de actina (PANCORBO SANDOVAL, 2005).


Harman (1993) cita que a mais precisa definição de força muscular é a capacidade de exercer força sob determinadas de condições como a posição do corpo, o movimento do corpo ao qual a força é aplicada, o tipo de movimento (concêntrico, excêntrico, isométrico, pliométrico) e a velocidade do movimento (BARBANTI, 1997; MAUGHAN e GLEESON, 2007).


Já o treinamento de força, também conhecido como treinamento contra resistência (treinamento resistido) é uma das formas mais populares de exercício para melhorar a aptidão física de um indivíduo e para o condicionamento de atletas (Fleck, 2006) e, de acordo com Weineck (2003, p. 224): “Antes de se fazer uma classificação dos tipos de força, deve-se considerar que a força e suas diversas manifestações podem ser sempre consideradas sob os aspectos de força geral e força específica”, sendo que os exercícios utilizados para o trabalho da força geral agem sobre todos os grupos musculares, independente dos movimentos que determinada modalidade esportiva exige, visando o desenvolvimento harmonioso de todo o organismo com o aperfeiçoamento de suas estruturas e funções, servindo de base para suportar as cargas de treinamento de caráter especial do esporte considerado (BARBANTI, 2001).

Em relação à força específica, de acordo com Kraemer e Häkkinen (2004) a especificidade do treinamento de força é fundamental para o resultado final no desporto, o qual determina algumas exigências para determinados tipos de força, ou seja, enquanto algumas modalidades requerem um alto nível de força máxima e de força-velocidade, outras exigem níveis altos somente de força resistente ou de força-velocidade. Ainda há também outras modalidades que necessitam de um equilíbrio desses tipos de força (PLATONOV, 2004).







Agachamento frontal - exercício específico de força no levantamento de peso.







Treino de tackle - ótimo treino para esportes como rúgbi ou futebol americano







Treino com cinta de peso (trenó - wield belts) - Específico treino de força para esportes de corrida como atletismo, futebol, futebol americano, rúgbi, etc.






É importante destacar que no âmbito desportivo, os tipos de força mencionados não se manifestam de forma isolada, mas sim em completa interação determinada conforme a especificidade de cada modalidade esportiva (Platonov e Bulatova, 2003). De acordo com Ritzdorf (2000), o desenvolvimento da força e da potência muscular é parte integrante do treinamento em quase todos os esportes. No entanto, os objetivos do treinamento são tão diferentes quanto os conteúdos, métodos e procedimentos utilizados.

Quanto aos métodos e programas do treinamento de força, encontramos vários exemplos e sugestões na literatura. Baseado em Weineck (2003), listamos alguns deles: Treinamento de Força Dinâmico (Positivo ou Concêntrico e Negativo ou Excêntrico), Treinamento Pliométrico e Treinamento de Força Estático Isométrico. Dentro destes métodos ainda existem outras subdivisões.

Para entendermos melhor, buscamos as classificações da força, onde, segundo Weineck (2003) temos três tipos: resistência de força (onde detalharemos apenas a força de resistência hipertrófica pelo fato de se aproximar mais, mesmo sendo uma capacidade geral, da especificidade do esporte) (Kraemer e Häkkinen, 2004), e a força máxima e força rápida, que serão consideradas capacidades motoras especiais para o levantamento de peso.

Capacidades motoras especiais - Força Máxima e Força Rápida:

Em relação à força máxima, podemos conceituá-la como a maior força disponível que o sistema neuromuscular pode mobilizar através de uma contração máxima voluntária quando a resistência só pode ser deslocada uma vez, ou se desloca ligeiramente e/ou transcorre a uma velocidade muito baixa em uma fase de movimento (WEINECK, 2003; BADILLO e AYESTERÁN, 2001).

No desporto de alto nível, Platonov (2004) cita que são utilizadas duas vias relativamente independentes e muito eficazes para desenvolver a força máxima. A primeira via pressupõe o incremento da força mediante o aperfeiçoamento dos mecanismos neurorreguladores (aprimoramento da impulsão e da coordenação inter e intramuscular) e o aumento da capacidade, da potência e da mobilidade do sistema alático de fornecimento de energia para a contração muscular.

Mas, esse meio não fornece um grande aumento da massa muscular, o que é importante, sobretudo, em modalidades esportivas em que o peso corporal não deve ser demasiadamente aumentado, como por exemplo, as competições de levantamento de pesos, onde os atletas de determinadas categorias de peso corporal devem aumentar sua força sem ultrapassar o peso limite (Weineck, 2003), ocorrendo uma melhora no recrutamento das fibras lentas, do tipo I, e rápidas, do tipo IIa e do tipo IIb, que atualmente são denominadas, de acordo com Pereira (2007), fibras do tipo IIx.

A segunda via, de acordo com Hartmann e Tünnemann apud Platonov (2004), pressupõe o aumento da força mediante o aumento do diâmetro muscular, baseando-se em uma organização do treinamento que permite uma intensa degradação das proteínas dos músculos ativos, estimulando, então, a síntese protéica no período de recuperação com a conseqüente supercompensação das proteínas contráteis e o respectivo aumento da sua massa.

Atualmente, os treinadores russos de levantamento de peso russos aparentam estarem utilizando demasiadamente essa via como método para o aumento da força. Charniga Jr. (2008), ao escrever um artigo sobre o Campeonato Europeu de Levantamento de Peso, 2008 (que pode ser acessado em seu site: http://www.sportivnypress.com/English/frames.html), cita que a maioria dos atletas russos estão treinando demais os membros superiores, como por exemplo os atletas Beretsov e Plovnikov, que aparentam até possuírem maior volume muscular em suas extremidades superiores do que nas extremidades que realmente importam para o esporte e que, sem dúvida nenhuma, são mais essenciais para o aumento da força em âmbito geral.

Plovnikov com seus braços maiores do que o necessário levantando 205 kg no arremesso.






Beretsov se lesiona após aquecimento para a prova de arremesso - observem que há uma desproporção entre membros superiores e tronco em relação às pernas.
















Beretsov realizando com muita dificuldade sua única tentativa de sucesso no arremesso com 220 kg


Porém, independente de qual via for utilizada para se treinar a força máxima, devemos compreender que a ação ocorrerá principalmente a nível neuromuscular, por isso Bompa (2001, p.150) afirma que “(...) um dos principais objetivos do treinamento de força máxima é aprender a eliminar a inibição do SNC”. Assim, uma diminuição dessa inibição, acompanhada por um aumento na força, resultaria no maior aumento do potencial de força, que está relacionada com a força absoluta. Força absoluta é a soma da força máxima e da força de reserva, mobilizada somente sob condições extremas (risco de vida, hipnose, etc.), ou seja, ela refere-se à capacidade de um atleta para exercer força máxima, não importando seu peso corporal (WEINECK, 2003).

A força absoluta, de acordo com Bompa (2001, p.26) “é necessária para se atingir altos níveis em alguns esportes (arremesso de peso, categorias de peso mais pesado no levantamento de pesos e luta greco-romana)”, ou seja, um alto nível de força absoluta é necessário quando o atleta deve superar uma grande resistência externa e quando há uma breve e uniforme contração isométrica juntamente com uma significante carga externa (VERKHOSHANSKY, 1995).

Resumindo, a força máxima, sendo uma capacidade motora que para ser treinada deve sofrer estímulos principalmente neuromusculares, só pode ser treinada através de cargas máximas ou próximas (acima de 90% de 1 AVM - Ação voluntária máxima ou comumente denominada RM - Repetição Máxima) (Bompa, 2002, Weineck, 2003, Platonov, 2008). Alguns autores, como Bompa (2002) ainda citam a Força Supramáxima, ou seja, acima de 100% de 1 AVM. Porém, Badillo e Ayesterán (2001) citam que a força supramáxima (ou a força acima de 100% de 1 AVM) só pode ser realizada de maneira excêntrica ou isométrica, ou seja, caso seja possível levantar a carga ao menos uma vez, essa carga automaticamente se torna o 100% de 1 AVM, mesmo que na sessão anterior, o mesmo 1 AVM fosse 10 kg a menos.



Mariusz Pudzianowski realizando um exercício de competição em situação de força máxima.



Sale (2006) no livro de Komi: Força e Potência no Esporte (2006) cita os principais meios de adaptação (hormese - lembram do artigo "Sistema Endócrino", onde comentei sobre adaptação-hormese?) neural ao treinamento de força. Um deles é o incremento da ativação dos agonistas, onde Seluianov (2008) fornece uma breve explicação de como funciona o mecanismo neural da contração muscular, citando que quando o atleta contrai qualquer músculo, ativa os correspondentes motoneurônios no córtex cerebral, que por sua vez envia impulsos para a medula espinal, através dos feixes de motoneurônios, servindo dado músculo. Visto que nos feixes de motoneurônios o tamanho deles é diferenciado, então, diante de um impulso de baixa freqüência a partir do sistema nervoso central, só consegue-se ativar motoneurônios de baixo limiar. Cada neurônio inerva as suas fibras musculares, por isso a ativação do motoneurônio leva ao recrutamento ou excitação das correspondentes fibras musculares (tipo I, IIa e IIx, além de outros tipos).

A ativação dos músculos sinergistas (músculos que contribuem para o movimento, porém não consideraremos os agonistas) também é, de acordo com Sale (2006), uma hormese ou um ajustamento neural devido ao treinamento. Assim com uma menor co-ativação dos músculos antagonistas, o que, de acordo com Aagaard et al. (2000) apud Komi (2006), essa co-ativação parece ser contraprodutiva, particularmente em uma tarefa de força. Mas uma das principais alterações hormértica em relação às respostas neurais ao treinamento de força, pode-se dizer que seja uma maior sincronização das unidades motoras (UMs), mesmo apesar de existirem poucos estudos longitudinais ou transversais de treinamento comparando grupos treinados e não-treinados (Sale, 2006), pode-se observar que a força de uma contração máxima depende de quantas unidades motoras são ativadas simultaneamente, assim como (ou até mais) da área de secção transversal do músculo envolvido (MAUGHAN e GLEESON, 2007).



Exemplo de músculos agonistas e antagonistas.


Analisando essas modificações, onde percebemos que durante o exercício máximo, o recrutamento inicial completo de (quase) todas as UMs é seguido por uma perda gradual de algumas UMs quando a fadiga acontecer (Maughan e Gleeson, 2007), podemos dizer que o tempo de recuperação para uma nova série deve ser suficiente para a restauração (quase) completa dessas UMs e do estoque de ATP para poder gerar um no recrutamento de UMs que seja tão intenso (ou quase) ao anterior, ou seja, para séries de força máxima, onde são recomendadas de 1 a 3 repetições, são necessários intervalos acima de 5 minutos (OLESHKO, 2008, EL-HEWIE, 2003; BADILLO e AYESTERÁN, 2001; WEINECK, 2003; BOMPA, 2002).


Ronnie Coleman descansando após uma série. Mesmo no fisiculturismo, em algum período do ano, é recomendável realizar treinos de força máxima.


Encerraremos essa parte sem comentarmos sobre a capacidade motora de Força Rápida para o texto não ficar muito maçante. No próximo artigo sobre Levantamento de peso retomarei alguns tópicos sobre sistema nervoso e finalizarei as capacidades motoras da força, citando as duas restantes (Força Rápida e Resistência de Força).
Dúvidas ou informações, comentem o blog ou enviem um e-mail para rdallsantos@hotmail.com.
Obrigado!
Rodrigo Dall'Aqua

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Despedida de um Herói!


Hoje escreverei sobre um momento ao qual todos presenciamos na data histórica de 25 de maio de 2008. A despedida de um dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Falo de Gustavo Kuerten. O maior tenista que o Brasil já teve, e um dos 20 melhores de todos os tempos. Se não fosse pelas graves lesões, seria, tranqüilamente, um dos dez melhores.

Não irei falar sobre a pessoa Guga (pois não há muito mais o que falar, além de comentar o que todos nós já sabemos: ele é um exemplo a ser seguido por todos, não pela suas conquistas, mas devido ao seu caráter, seu modo de pensar e, principalmente, modo de agir!), mas irei comentar sobre como o nosso amado país o trata e, levantar uma teoria caso ele nascesse em um país vizinho, na Argentina.

Primeiramente, se nos focarmos no início de sua carreira, nós (brasileiros) nem o conhecíamos. Nem os profissionais da área (treinadores de tênis), acredito, que também mal o conheciam. O jogador de futebol é diferente... Aos 10 já é famoso, 16 assina contrato com um clube e, aos 17 vai para a Europa. Tudo bem! A situação de hoje é assim. A de 10 anos atrás era diferente... Acrescente um ano em cada fase citada anteriormente. Mesmo no futebol ainda há jogadores que passam despercebidos em inúmeros clubes.
Voltando ao tênis, Guga surgiu em 1997, aos 20 anos de idade, ao conquistar o título de Roland Garros (em sua primeira participação em torneios de "Grand Slam"), vencendo os melhores da época e na final, derrotando o espanhol Sergi Bruguera (que era bi-campeão desse torneio). Após essa conquista, Guga virou mania nacional. Veio o bi-campeonato em 2000, onde também, no qual foi sua melhor temporada, ele foi campeão da "Masters Cup", tornando-se o único tenista a derrotar, em dias seguidos, Pete Sampras e Andre Agassi (considerada sua melhor atuação na carreira). Além disso, consagrou-se como primeiro tenista brasileiro a ocupar o primeiro lugar no ranking da ATP.
Veio o tri de Roland Garros em 2001, que consagrou-o como lenda na França.







Mas como em qualquer outro atleta de elite, seu organismo vivia em uma linha tênue entre o ápice do rendimento e a lesão. O tênis, assim como diversos esportes, é uma atividade muito repetitiva. Imagine ficar durante mais de 3 horas rebatendo uma bola com a maior força possível, quase que ininterruptamente, além de treinos extremamente longos - digo ainda que alguns, como treinos de saque e técnica, são desnecessariamente longos. Qualquer desequilíbrio que você possua em seu corpo, provavelmente ele será agravado, até se tornar uma lesão crônica. Foi o caso de Guga.

Porém, a lesão faz parte do esporte - É NATURAL. Embora muitos colegas da área não pensem assim. Preferindo assim, evitar ultrapassar limites com MEDO da lesão. Há uma linha de pensamento muito forte na área de treinamento com pesos que pensa assim. Uma linha que está dominando até o cenário do esporte de alto rendimento (por incrível que pareça há atletas que treinam sempre com um treinador ao redor sempre preocupado em lesão!).

A palavra da moda: "overtraining" ou "supertreinamento". Que nada mais é do que treinar demais, sem repouso adequado e sem alimentação adequada. Mas o problema é que "overtraining" não pode ser visto como um bicho de sete cabeças. Todo o atleta (amador ou profissional) que treina sério já passou por situações de "overtraining". O que diferencia de um que não se lesiona para o que se lesiona é a capacidade de auto-percepção, de conhecer a si mesmo. Se o atleta possui uma noção de seu corpo, quando chegar ao extremo de sua condição física, ele mesmo sentirá que estará no limite. Nosso corpo envia sinais (abaixa a imunidade, aparecendo gripes, dores de cabeça, cansaço em demasia, falta de concentração, ansiedade, sono, etc.), aos quais, cabe ao atleta e aos treinadores serem capazes de diagnosticá-los. Os treinadores e preparadores físicos, ao perceberem ou serem comunicados que seu atleta se encontra em estado de "overtraining", se os mesmos possuirem o mínimo de humildade, deverão aceitar o fato que tenham, talvez, exagerado em seus planejamentos, e, então, realizarem as devidas modificações.
A lesão de Guga ainda não foi explicada. Sobre esse tema, irei optar pelo silêncio para evitar complicações e más interpretações. Mas que algo como a má iniciação ao desporto (falta de vivência em outras modalidades, por exemplo) e um fraco reforço muscular (poh! Guga come banana até hoje, enquanto outros atletas utilizam algumas substâncias que nem na lista do doping devem aparecer)... Isso é certo! - talvez seja uma "Teoria da Conspiração" adaptada por "Dall'Aqua", mas que acredito fielmente. Isso sim!... Bom... Resumidamente, a lesão de Guga apareceu e seu rendimento caiu. Essa lesão o incomodou durante o restante de sua carreira.
Mesmo assim, em 2004, Guga derrotou (em Roland Garros) o então melhor tenista da época (e até hoje o é) Roger Federer por 3 sets a 0. Ultima partida que Federer perdeu por 3 a 0 até hoje. Apesar disso, a mídia nacional chegou a criticar Guga. Alguns comentaristas esportivos chegaram até denominar suas atuações de "vergonhosas" ou "apáticas". Pegaram no pé de Guga durante um tempo da mesma forma que pegam no pé de Romário, Ronaldo, Ronaldinho. Mas cá entre nós, comparar Guga com qualquer um desses é muita estupidez. Guga é de outra nação. De outro continente. Outro Mundo! Guga é aquela pessoa que se não fosse famosa, seria igual ao que é hoje. É um herói. E assim como nossos Heróis (não aqueles heróis que Pedro Bial "consagra" nos Big Brother's) Guga será esquecido pelo povo ou não tão lembrado como deveria (espero que esteja errado).




Assisti no canal Sportv, nesse fim de semana, a um programa sobre atletismo, onde apareceu uma ex-atleta da modalidade salto em altura, Aida dos Santos Menezes que, para as Olimpíadas de Tóquio 1964, no Japão, teve que saltar 5 vezes o índice olímpico, pois o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) não queria levar uma atleta, e muito menos uma atleta negra para Tóquio. Na vila Olímpica ela foi isolada. Sem treinador e sem sapatilhas para treinar e competir, ela treinou por si mesma, e conseguiu, antes da competição, um par de sapatilhas emprestadas de um atleta cubano. Mesmo com uma lesão no tornozelo (pois sem treinador as chances são maiores de lesão), Aida dos Santos conquistou o quarto lugar. Ela até hoje participa de competições masters, e mesmo sendo de origem humilde, se formou em educação física, geografia e pedagogia. Heroína brasileira. Muito pouco ou nada lembrada em nosso país.





Aida dos Santos - Heroína brasileira nos Jogos Olímpicos de Pequim, 1964.

Poderia contar a história de inúmeros outros atletas nossos que fizeram tanto pelo esporte, porém hoje ninguém os lembra. É só irmos ao Museu do Esporte aqui em Porto Alegre para observarmos. Apenas fotos de jogadores de futebol, árbitros e em menor escala, jogadores de vôlei e basquete e por fim, alguns ginastas da moda e tal. Esporte? Será que essa palavra, para o brasileiro é sinônima de futebol? Quantos comentaristas esportivos que só falam sobre futebol nós temos na televisão? E mesmo assim, será que os ídolos do passado são lembrados como deveriam? Olha o Pelé. Admirados por todos lá fora. Aqui, tem alguns ainda que se dão ao trabalho de prestarem atenção nas bobagens que Maradona fala e apresentam programas inteiros com um debate: Será Maradona melhor que Pelé? Fala sério.

Mas é um exemplo marcante de como nós desvalorizamos o que é nosso. Maradona, não servindo nem para limpar chuteiras do Pelé, na Argentina é idolatrado até hoje. Mesmo nunca sendo um atleta exemplar e ex-usuário de drogas. Caso alguém argumentar que é devido a Copa do Mundo. Bom, Pelé tem 3. Outros títulos, não há nem comparação. Capacidade atlética? Maradona, mesmo com todas as substâncias dopantes no planeta não chegaria à capacidade que Pelé tinha. Assistam ao filme do Pelé (não ao que o Chaves insiste em assistir). Corria muito, era forte, saltava igual a um levantador de peso (com muita potência - olhem a foto abaixo de Pyrros Dimas e vejam o quanto ele pulava em suas comemorações), tinha agilidade, flexibilidade, etc. Um atleta, para os padrões da época, perfeito. Hoje, talvez, Mariusz Pudzianowski seja esse atleta.

Pyrros Dimas - Tri-campeão olímpico de Levantamento de Peso e um dos melhores levantadores de peso de todos os tempos. De acordo com Stone e Kirksey in Garrett Jr. e Kirkendall (2003), os levantadores de peso chegam a saltar verticalmente com as pernas estendidas (um dos testes padrões para a avaliação de potência dos membros inferiores), em média, 75.4 cm, superando nesse estudo, atletas do basquete, futebol americano, velocistas, saltadores, etc.




Mariusz Pudzianowski - 4 vezes o campeão do "The World Strongest Man" - corre, possui flexibilidade, coordenação, potência, velocidade, agilidade e, além de tudo, pesa mais de 130 kg em 1.86m de altura.



Retornando novamente ao tema principal, Guga. Será que se ele fosse argentino ele seria mais valorizado. Certamente. Até o tênis seria mais desenvolvido após sua consagração. No Brasil ficou na promessa. Continua tudo como era antes de Guga. Alguns poucos e bastante teimosos treinadores ainda comandam nosso tênis. Raras as oportunidades em que observamos profissionais capacitados como o Ms. Charles Lopes fornecendo prescrição e montagem de treino para alguns tenistas mais conscientes. Não há planejamento em relação à formação e seleção de talentos. Mas se nem no futebol há isso! Como poderia exigir que houvesse no tênis?! Erro da minha parte. Desculpem-me.
Como posso afirmar que na Argentina seria diferente? Olhem o basquete. Houve planejamento. Surgiu uma equipe campeã olímpica. Continuou esse planejamento, mesmo após algumas derrotas. Não precisa mudar por causa de uma derrota. Assim como a lesão, a derrota também é NATURAL! (Lembram das variáveis do rendimento? São muitas...). Provavelmente, após a era Ginobili, haverão outros. Após a era Messi, surgirão outros. Após a era de Contempomi e Corleto (jogadores de rugby) surgirão outros. Por que? Porque nesse país vizinho há PLANEJAMENTO. Planejamento foi o que fez o internacional ser um time forte. Não digo ser campeão da Libertadores, pois aí, de acordo com Dall'Aqua em sua "Teoria da Conspiração", algo maior está por trás disso. Nem comento sobre o Mundial.


Felipe Contempomi - Um dos destaques da Argentina no Mundial de Rugby em 2007.














Manu Ginóbili - Jogador do San Antonio Spurs e líder da Argentina na conquista da Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.


Finalizando, Guga não recebeu ainda nem um décimo das homenagens que deveria receber de nós (brasileiros). Espero que sejamos capazes de imortalizá-lo em nossa história, pois o que ele conquistou e, principalmente, como ele conquistou são ensinamentos que podemos e devemos transmitir aos nossos descendentes.





Para mais informações, dúvidas ou sugestões, comentem ou enviem um e-mail para rdallsantos@hotmail.com.

Obrigado!

Rodrigo Dall'Aqua

terça-feira, 20 de maio de 2008

Sistema Endócrino


Após adquirirmos um pequeno conhecimento sobre a história dos EAA, e observarmos que seu uso não é recente, iremos abordar a parte fisiológica relacionada aos EAA. Definindo os tipos de Esteróides, mecanismos de ação, etc.
Antes de falar sobre a endocrinologia, acredito ser relevante citar um trecho de Pancorbo Sandoval (2005) que é de extrema relevância no âmbito da história (postagem anterior).
Em seu livro, "Medicina do Esporte", ele cita que a palavra "doping" não é proveniente do idioma inglês, é derivada do termo "dop", procedente do dialeto kaffir na África do Sul, para denominar um licor forte consumido pelos membros das tribos dessa região como forma de estimulante durante suas cerimônias religiosas. Esse termo foi adaptado na linguagem bôer - ou seja, dos descendentes de colonos, principalmente, dos Países Baixos, Alemanha e França que se estabeleceram na África do Sul nos séculos XVII e XVIII - e, posteriormente, seu uso foi ampliado para outras bebidas e estimulantes. Vários outros termos são reconhecidos para identificar a palavra, porém todos têm o mesmo sentido.
Pancorbo Sandoval (2005) também descreve a história do "doping", desde os anos 300 a.C., onde há uma pintura de um imperador da época mastigando uma rama de "ephedra" , planta que contém efedrina - anfetamina do grupo das substâncias aminas simpaticomiméticas na relação do COI. Estimula o coração e a circulação, alivia a asma e a congestão nasal e diminui a sensibilidade à dor.
Estudos recentes mostram que a efedrina durante a dieta ajuda na preservação dos músculos enquanto reduz a gordura, sendo que a cafeína e a aspirina a tornam mais efetiva (SANTOS, 2007).


Outro importante marco histórico sobre o "doping" ocorreu em 1910, quando o químico russo Bukovski realizou a primeira análise científica para demonstrar a presença de substâncias alcalóides na saliva do cavalo (PANCORBO SANDOVAL, 2005).
Logo em seguida, como dito na postagem anterior, em 1935 a testosterona foi sintetizada. Nesse ano, a testosterona foi isolada na forma cristalina por três grupos: o grupo de Butenandt e Hanish apoiados pela Schering Corporation, em Berlim; o grupo de De Lepold Ruzicka e A. Wettstein em nome de Ciba, e depois o grupo de David do Grupo Laqueur e sua equipe, em Amsterdã, que reportou o isolamento de um composto cristalino a partir de testículos de touro (10 mg de 100 kg) (STRAUSS e YESALIS, 1991; BAHRKE e YESALIS, 2002; STONE, 1993).




No início da década de 1950, de acordo com Santos (2007) os cientistas descobriram que a testosterona tinha duas qualidades distintas: a anabólica e a androgênica. A qualidade anabólica está associada à qualidade de construir tecido muscular, enquanto a qualidade androgênica associada ao efeito da feminilização nos homens (ginecomastia) e outros efeitos colaterais indesejados, e masculinizantes nas mulheres, como voz profunda (engrossamento da voz), pele grossa, pêlo facial e corporal, etc.
De acordo com Stone et al. (1993), uma das principais ações fisiológicas dos androgênios é a estimulação da proteína anabólica ou da fase construtiva do metabolismo no corpo. Muitos estudos e revisões foram publicadas nas últimas décadas sobre o efeito dos esteróides androgênicos na massa e composição corporal, força, capacidade aeróbia e rendimento em seres humanos. Muitas dessas investigações foram conduzidas utilizando estudantes universitários que tiveram a mínima experiência com treinamento com pesos (CASNER et al. 1971; FAHEY e BROWN, 1973).



As principais conclusões desses estudos em relação às respostas do nosso corpo e comportamento ao aumento da concentração de androgênio durante a puberdade foram:
(a) completo desenvolvimento das características sexuais primárias, como crescimento do pênis, aumento da freqüência de ereções e aumento do interesse sexual;
(b) mudanças na pele e seus derivados, incluindo crescimento de pêlos na região genital, e aumento do tamanho e espessura do coração e engrossamento da voz;
(c) aceleração do crescimento dos ossos e do desenvolvimento da massa muscular;
(d) o período da puberdade também é associado à mudanças no aspecto psicológico, particularmente em relação à imagem corporal e identidade própria (STONE et al., 1993).
Porém, esses fatores acima são devidos também aos fatores anabólicos dos hormônios esteróides, pois, como cita Stone et al. (1993), ainda não existe um esteróide anabólico puro, que não possua efeitos androgênicos.
A natureza do corpo humano é tal que ele não pode sobreviver sem algum método de comunicações internas. Os humanos desenvolveram dois desses sistemas de comunicação interna: o sistema nervoso, que responde rapidamente usando vias neurais específicas para receber e enviar informação por todo o corpo; e o sistema endócrino, um grupo de glândulas livremente associadas, que regulam os processos fisiológicos em uma velocidade muito mais lenta do que o sistema nervoso (McMURRAY e HACKNEY, 2003).
Os hormônios são substâncias químicas sinalizadoras. São formados por células especializadas que, muitas vezes, são agrupadas formando as "glândulas endócrinas" (KOOLMAN e RÖHM, 2005).




Por meio da integração dos sistemas de comunicação, o corpo "mantém a homeostase" - termo muito discutido pelos cientistas pois, o nosso corpo m alguns sentidos podemos dizer que somos homeostáticos (temperatura corporal, que mesmo assim há variações entre repouso e em atividade), porém prefiro citar que nosso corpo sempre procura se "manter" o mais próximo possível da "homeostase", realizando ondas, de altos e baixos, sobre o dito "ponto ideal", usando o termo "homeodinâmica" - bem como responde e "adapta-se"* ao estresse (McMURRAY e HACKNEY, 2003).
* Também prefiro outro termo, pois, de acordo com estudos biológicos, a adaptação está associada à seleção natural e explica como a vida se modificou ao longo do tempo, sendo tais modificações resultantes de mutações gênicas irreversíveis ocorridas no DNA do organismo e transmitidas de uma geração a outra após passarem pelo crivo da seleção natural. Charles Darwin (seus inúmeros estudos podem ser acessados gratuitamente no site: http://www.darwin-online.org.uk/), explica que, para haver adaptação são necessárias gerações e gerações, sendo fundamental que as forças de seleção natural proporcionem uma variação dos genes no mesmo. Assim, é recomendável a área do treinamento físico a escolha de outro termo para nomear as alterações "momentâneas" (agudas ou crônicas) que nosso organismo sofre em resposta ao treinamento.
Calabrese (2002) cita como "efeito hormético" ou "hormese", ou seja, uma resposta supercompensatória ao desequilíbrio da homeodinâmica, provocado por determinado estímulo estressante (não necessariamente sendo essa supercompensação resultado do treinamento físico, mas um efeito genérico inerente à vida sob estresse moderado). A hormese é o resultado de uma modificação crônica, porém não necessariamente uma adaptação da espécie, pois os filhos de atletas ainda não possuirão as mesmas modificações de seu pai sem o mesmo estímulo. Os conceitos de adaptação, de acordo com Moran (1994) tem que ser diferenciados dos conceitos de "ajustamento" - pode ser visto como sinônimo de hormese - onde o primeiro deve ser empregado quando as mudanças estruturais-funcionais ocorrerem irreversivelmente com possibilidade de transmissão para outras gerações devido ao seu valor adaptativo para a espécie.
Já as alterações de ajustamento, podem ser devido à quatro fatores: regulador, aclimação, aclimatação e desenvolvimento, os quais serão comentados em artigos futuros.


Adaptação



Hormese

Continuando, os hormônios transferem sinais hormonais por migrarem do local de sua formação para o local de sua ação. Se o transporte ocorrer pelo sangue (mais comum), refere-se a um efeito endócrino. Mas se o transporte ocorrer através das glândulas sudoríparas e pelo trato digestivo, o efeito será exócrino. Os hormônios teciduais, cuja células-alvo encontram-se vizinhas às células glandulares têm um efeito parácrino (célula próxima). Se a substância sinalizadora agir sobre a própria célula que a produziu, trata-se de um princípio de efeito autócrino (célula produz e é afetada pelo hormônio). Encontra-se esse efeito freqüentemente em células tumorais que, dessa forma, estimulam a sua própria proliferação.
O sistema endócrino consiste de um grupo de nove glândulas e alguns tecidos específicos livremente associados encontrados por todo o corpo. Essas glândulas secretam hormônios para o sangue, caminho o qual eles serão transportados para o "órgão alvo" (Koolman e Röhm, 2005). A liberação de hormônio é comumente controlada pelo mecanismo de "feedback", ou seja, as glândulas percebem a necessidade do hormônio (usualmente a partir do sangue), e então, o hormônio é liberado, move-se até o tecido-alvo e corrige o distúrbio. Uma vez corrigido, os sinais são enviados de volta à glândula, geralmente pelo sangue, para reduzir a liberação do hormônio. Entretanto, alguns mecanismos de "feedback" não tão simples assim e envolvem múltiplos órgãos e glândulas. Independentemente do mecanismo de "feedback", o propósito da resposta endócrina ainda permanece o mesmo: manter a existência do organismo humano (McMURRAY e HACKNEY, 2003).
O "feedback negativo" ou "efeito rebote" trata-se de uma resposta em mesma ou maior proporção em relação há uma ação hormonal. Por exemplo, quando você ri demais, há, logo em seguida uma sensação de depressão (PEREIRA, 2007).
Existem duas classificações químicas de hormônios: os baseados em aminoácidos, e os baseados em esteróides, ou seja, do ponto de vista químico, a maioria dos hormônios são derivados de aminoácidos, peptídeos e proteínas ou esteróides.

McMurray e Hacney (2003) afirmam que os hormônios esteróides são sintetizados a partir do colesterol nas gônadas e no córtex adrenal, sendo lipossolúveis e, por isso, podem difundir-se diretamente para dentro da célula. Dentro dela, eles combinam-se com um receptor (receptor intracelular), que, por sua vez, desloca-se para uma proteína associada ao DNA, iniciando a atividade do gene.

Os hormônios esteróides mais importantes, de acordo com Koolman e Röhm (2005) e Stone et al. (1993), são:

PROGESTERONA (hormônio sexual feminino que prepara o útero para uma possível gestação, além de ser responsável pelo desenvolvimento das glândulas mamárias);

ESTRADIOL (representante mais importante dos estrogênios. Controla o ciclo menstrual, é responsável pelo aparecimento dos caracteres sexuais secundários como mamas e distribuição de gorduras);
TESTOSTERONA (é o esteróide sexual masculino (androgênio) mais importante. Produzido nos testículos (células de Leydig). Responsável pelo funcionamento e desenvolvimento das gônadas masculinas. Também determina os caracteres sexuais secundários masculinos - MÚSCULOS, pêlos, etc.);

CORTISOL (formado pela supra-renais, age de forma regulatória sobre o metabolismo das proteínas e dos carboidratos, promovendo a degradação de proteínas e a transformação de aminoácidos em glicose, elevando o nível de glicose no sangue - os glicocorticóides sintéticos são utilizados como medicamentos devido ao seu efeito antiinflamatório e imunossupressivo);




Já os hormônios baseados em aminoácidos (a maioria) variam em tamanho - de complexos aminoácidos simples a grandes moléculas - e entram na célula por meio de exocitose para efetuar uma resposta, mas a maior parte tipicamente não entra diretamente dentro da célula. Eles comumente combinam-se com um sítio receptor na membrana celular, o qual ativa outro componente no citoplasma, um "segundo mensageiro" para efetuar a resposta dentro da célula.

Espero ter fornecido uma leitura mais agradável sobre um tema muito teórico e com muitos termos relacionados à química e à bioquímica de difícil compreensão, até para estudiosos da área. Este artigo foi apenas uma introdução ao componente metabólico do sistema endócrino. Futuramente serão citados novamente esses hormônios e seus modos de utilização, ganhos e seus efeitos colaterais (maléficos e benéficos ao rendimento e à saúde).

Obrigado!

Rodrigo Dall'Aqua

domingo, 11 de maio de 2008

Introdução aos Esteróides Anabólicos-Androgênicos (EAA)


Ao postar um artigo sobre esse tema de extrema delicadeza, decidi tomar os devidos cuidados, para que não haja más-interpretações sobre o assunto. Por isso, esse artigo será baseado nas principais referências mundiais sobre o uso de esteróides no esporte. Porém, como disponho de inúmeros artigos sobre esse tema, logicamente, não serei capaz de lê-los em apenas uma ou duas semanas.
(A foto ao lado mostra um Esteróide Anabólico-Androgênico [EAA] usado em animais e muito utilizado pelos praticantes de musculação)
Assim, dividirei o assunto em diversos tópicos, até para facilitar a compreensão e abordá-lo através de uma linguagem menos técnica (científica).



O nome "esteróide" é originado de uma palavra grega que significa sólido. O nosso corpo é capaz de produzir mais de 600 tipos diferentes de esteróides, incluindo a testosterona, sendo que a maioria manifesta as atividades do hormônio masculino.



Existem vários motivos que levam uma pessoa a utilizar os esteróides anabólicos. O principal é buscar melhorar o desempenho, principalmente entre os atletas. Porém, cada vez mais não-atletas vem utilizando essas substâncias, objetivando apenas melhorar a aparência e sem ambições em aumentar a performance.



Yesalis afirma que em 1988, nos Estados Unidos, pesquisadores norte-americanos descobriram que aproximadamente 7% dos adolescentes masculinos já tinham usado EAA, sendo que muitos não participavam de atividades esportivas na escola.



O Dr. José Maria Santarem acredita que a situação atual em relação ao uso de EAA é semelhante à que ocorreu com o tabagismo no início do século XIX, ou seja, a utilização por grande número de pessoas aparentando boa saúde tende a estimular a noção de segurança.



Mas a história dos EAA é muito mais antiga. Os antigos gregos faziam uso de cogumelos alucinógenos, e os gladiadores de Roma tomavam estimulantes naturais para superarem a fadiga e os machucados (CATLIN e HATTON, 1991; MILLAR, 1996).



Em relação às pesquisas científicas, Santos (2007) cita que em 1849, um cientista alemão chamado Berthold fez uma experiência simples com seis pássaros, onde mostrou que as mudanças nas penas, ocorridas quando eles foram castrados, poderiam ser prevenidas se os testículos removidos fossem transplantados para dentro da cavidade abdominal. Esse experimento tornou claro que a substância masculinizante ativa estava na corrente sangüínea e não envolvia o SNC (Sistema Nervoso Central), como diziam muitos cientistas no fim do século XVIII.



O dr. Charles Kochakian foi o cientista mais importante na pesquisa hormonal, sendo considerado o pai dos esteróides anabólicos. No início da década de 30, dr. Kochakian demonstrou que o hormônio extraído da urina de machos estimulava forte balanço nitrogenado positivo em cães castrados. Essa pesquisa estabelecia a propriedade anabólica e a construção de tecidos pela testosterona.



Mas foram os alemães, na Segunda Guerra Mundial que desenvolveram os esteróides, experimentando inicialmente em cães, e depois os generais alemães, conscientes de que a testosterona poderia aumentar muito a agressividade no homem, começaram a fornecê-la para as suas tropas que eram enviadas aos campos de batalha. Essa mesma testosterona fora também utilizada para ajudar vítimas dos campos de concentração nazistas. Além de ser usada nos prisioneiros, no intuito de mantê-los saudáveis, porque sofriam de má nutrição significativa (SILVA, DANIESLKI e CZEPIELEWSKI, 2002).





Os nazistas injetavam EAA nos prisioneiros judeus para mantê-los "saudáveis".


Os cientistas alemães, trabalhando durante a Segunda Guerra Mundial, foram os primeiros a sintetizar os esteróides anabólicos. Sendo, os alemães acusados de terem conduzido maciças experiências com prisioneiros humanos envolvendo esteróides anabólicos (FRANKE e BERENDONK, 1997).


Alguns dos experimentos nazistas na II Guerra Mundial.



Porém, os resultados dessas pesquisas nunca foram publicados. De acordo com Gallaway, no livro "The Steroid Bible" - A Bíblia do Esteróide - (1997), há rumores de que Adolf Hitler utilizava esteróides anabólicos, e especula-se que seu uso tenha ampliado sua personalidade agressiva.




Adolf Hitler - Há rumores de que ele tenha utilizado EAA.





Em um artigo alemão, de Franke e Berendonk (1997) sobre o doping na República Democrática da Alemanha (Alemanha Oriental) , é descrito um programa secreto do governo para a promoção do uso de drogas (EAA) para o aumento do desempenho nos esportes. Várias teses secretas de doutorado, reportagens científicas, procedimentos e simpósios de especialistas serviram como colaboradores não-oficiais para o Ministério de Segurança Pública, e revelaram que, desde 1966, centenas de fisiologistas e cientistas, incluindo professores de ponta, dirigiram pesquisas em relação ao doping e prescreveram tanto drogas, como também a preparação de drogas experimentais não aprovadas, sendo esses cientistas sentenciados a prisão em 1998 (UNGERLEIDER, 2001 - comentado na edição de 20 de Junho de 2004, no New York Times).



Bandeira da ex-União Soviética - país que, junto com a Alemanha, foram e são os principais pesquisadores sobre EAA.



Na metade do século passado, muitos atletas russos e europeus começaram a considerar que os esteróides proporcionavam-lhes muitos benefícios. Assim, os levantadores de peso russos foram considerados os primeiros atletas a competirem internacionalmente fazendo o uso dos EAA.
Atualmente, uma pesquisa com os competidores de atletismo nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique na Alemanha, revelou que 68% dos atletas já havia usado EAA antes, sendo que 61% desses, havia usado nos últimos 6 meses (YESALIS e COWART, 1998).




Ben Johnson - Recordista mundial dos 100 metros (9.79 seg) e punido na mesma prova por uso de doping.




Equipe Nacional da Grécia de Levantamento de Pesos - Esporte que é o mais marcado pelo uso de doping devido à extrema rigorosidade do Anti-doping.




Observamos que cada vez mais os atletas (e não-atletas) estão fazendo uso dessas substâncias. Porém, o que desejo esclarecer com esses artigo, é que, assim como diversas outras drogas (álcool, cigarro, e assim por diante), o esteróide anabolizante pode não ser uma droga maléfica. Mas a falta de informação sim, ela faz com que o uso de qualquer substância possa ser prejudicial.




Sou a favor e contra o uso dessas substâncias. A favor quando o usuário possui o conhecimento, e acima de tudo, possui um objetivo bem delineado, sabendo dos riscos e conseqüências que o uso das mesmas proporcionam. Completamente contra o que acontece atualmente, principalmente no mundo das "academias" (fitness) - prefiro o termo "ginásios" ou "centros de treinamento com pesos" ao termo "academia" - onde os usuários a utilizam sem controle, objetivando única e exclusivamente a melhora da estética (mesmo sem pretensão de competir em fisiculturismo). Alguns (creio que esteja se tornando até epidemia) estão com tanta dismorfia muscular* (falarei sobre esse tema futuramente - também chamado de vigorexia ou anorexia inversa) que utilizam até óleo para aumentar o volume nos braços (principalmente) e panturrilhas.




Percebemos que essa discussão pode gerar muita polêmica. Por isso, espero que os leitores opinem e comentem sobre suas experiências, conhecimentos e postem suas dúvidas. Finalizo uma breve introdução histórica sobre esse assunto, que hoje, infelizmente, anda concomitantemente com o esporte de alto rendimento. No próximo tópico, explicarei como funciona os EAA e como ele age no nosso organismo.

Obrigado!

Rodrigo Dall'Aqua